quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Medo do Homem

Era o homem mais medroso do mundo: algo que algumas pessoas deviam achar dele e o que ele mesmo acreditava ser verdade. Fazia de tudo para não mostrar seu medo para ninguém, afinal, é preciso uma boa dose de coragem para demonstrar fragilidade. Vivia de forma que pudesse conviver com seus receios, sempre arriscando pouco para não perder nada, sem nem imaginar que assim também se perde tudo.

Segurança era o seu objeto de desejo máximo. Para ele, qualquer garantia tinha sua valia, de certificados de produtos às pequenas promessas de pé de ouvido, o importante era ter aquilo em que se sustentar. E não havia nada de estranho naquelas garantias, de 30 dias ou das 4 da manhã: um seguro, um porto seguro, era tudo que buscava. 

Fiel à igreja e à sua mulher, tinha sempre um lugar para ir e um lugar para onde voltar. Até que não tinha mais. Assim, de repente.

Em um acidente, sóbria, na velocidade permitida, afivelada no cinto, sua esposa se foi. E com ela, sua fé. Como pode? Onde está o sentido? Logo perdeu o controle e se perdeu de quem era.

Passado o momento em que nada poderia ser a resposta, começou o período em que tudo tinha algo a lhe dizer; pois, apesar da reviravolta, ainda era um injustiçado à espera de sua reparação. Buscou sua estabilidade perdida em todas as esquinas, da sabedoria chinesa à austríaca e já não sabia mais como tantas respostas poderiam solucionar a sua questão que sempre foi uma só.

Certo dia se olhou no espelho e viu uma imagem inspiradora. Não, não era o seu rosto preocupado, era a janela do seu quarto que mostrava uma paisagem que ele até então nunca tinha parado para apreciar - até porque a vista do oitavo andar lhe dava uma certa vertigem. Mas aquela cena comum, para ele, naquela hora, era especial.

Só sei que nada sei e saiu descartando velhos papéis e conceitos. Ao olhar para fora do seu mundo, descobriu que nem mesmo a paisagem era a resposta que tanto procurava e sim que, agora, respostas já não eram tão importantes assim. Repensou aquela vida e todas aquelas escolhas e se convenceu de que o maior medo do mundo é não ter certeza. Olhou de novo e se deu conta que ele, justo ele, desse medo já não sofria mais.

Um comentário:

  1. Gostei Luiz, uma leitura dinâmica que pode ser encarada como ficção ou realidade, que mostra o homem e seus conflitos, escreva mais. Parabéns meu sobrinho predileto.

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